sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Lugar querido

 

A grande maioria de nós tem um qualquer lugar que marcou, mais ou menos, a nossa infância. O meu ficava nos vales (ou fica, porque ainda existe), por onde passa um rio, mais para o centro-norte do país. Chegar lá era uma verdadeira aventura na estrada. Levantávamo-nos às 4h30 da madrugada para iniciar viagem pelas 5h30 o mais tardar. Não podia faltar o farnel para o pequeno almoço, que tomávamos a certa altura à beira da estrada. A viagem terminava após 6h de caminho, já pela hora do almoço quando lá chegávamos.

Como só havia um telefone na aldeia, era onde a minha avó recorria para ligar à minha mãe, para dizer que tínhamos chegado bem. E para ligar durante a semana, a contar novidades. A contagem das chamadas era por impulsos, por isso não havia tempo a perder com grandes detalhes. Cada impulso era muito caro, pelo menos para nós era!

Naquele tempo a praia fluvial era feita de seixos, uns maiores outros menores, uns mais achatados que outros. A água do rio seguia tão limpa que se podia ver o fundo e os peixes a fugir. Havia ainda as bateiras, que eram utilizadas para atravessar o rio ou para pescar, embarcações sem quilha e de fundo chato, feitas de forma artesanal, naquele tempo.

Tinha uma pequena cana de pesca que o meu avô me fez, mas acho que nunca pesquei qualquer peixe com ela. Era mais pela emoção de ter uma cana de pesca artesanal do que propriamente com a quantidade de peixe que podia pescar. Também gostava muito de escolher um seixo dos mais achatados, lançá-lo à água e vê-lo a saltar três e quatro vezes, quantas mais melhor.

A minha avó e as outras mulheres da aldeia lavavam a roupa junto ao rio. Batiam a roupa com força nos seixos de maior dimensão e depois de a bem torcer deixavam a secar ao sol.

A modesta casita onde morávamos, que já tinha sido morada da minha bisavó, não tinha água canalizada, nem casa de banho, nem esgotos. Apenas uma entrada com cozinha, e duas camas separadas por um cortinado. Somente havia uma pequena janela por cima do lava-loiças. A água potável, que usávamos em casa, ia buscar com um cantaro de plástico ao chafariz que ficava no fundo da ladeira. Ficava mais difícil voltar a casa com o cantaro cheio de água.

Durante as férias da escola, altura em que normalmente ia para a aldeia, lembro que o meu pai levava lápis, cadernos, borrachas, afias, canetas, para os miúdos da escola da aldeia, que era uma forma de poder ajudar aqueles meninos. Eles ficavam muito felizes com todo aquele material escolar.

Depois havia a tia Alice, que eu chamava de tia mas não era minha tia. Talvez soasse bem dizê-lo. A tia Alice fazia umas broas de milho divinais, cozidas em forno a lenha. Adorava comer as fatias de broa, ainda quentes, com manteiga derretida. Ainda hoje sinto o cheiro a fumo na cozinha da tia Alice, e as broas de milho a sairem do forno. Como não tínhamos laleira na nossa modesta casa, passava os serões na cozinha da tia Alice, só para ver o fogo a consumir a lenha na lareira de chão. Claro que não me esqueço da toira, implacável no seu curral, a quem lhe dei o nome de “Loira” porque era de cor castanha clara. Quando, no ano seguinte, retorno à “minha” aldeia, constato que a Loira já lá não está. Tinha sido abatida para providenciar alimento à família.

Em tempos idos, havia um pequeno café / minimercado na aldeia, onde se podia comprar pouco mais que um sumo, ou conservas. Se queríamos peixe ou carne teríamos de esperar pelo “petrolino”, acho que se chama assim porque vendia petroleo para os candeeiros de pavio, única iluminação de casa, à noite. O petrolino trazia também de tudo um pouco: sumos; enlatados; bacalhau seco; peixe fresco; carne; e muitos mais alimentos. Era o verdadeiro abastecedor da aldeia, naqueles tempos.

As pessoas da aldeia subsistiam muito dependentes do que cultivavam, que era essencialmente milho. Também cultivavam batata ou feijão, mas em menores quantidades. O milho que produziam servia não só para consumo próprio, mas também para vender e arrecadar algum dinheiro. A produção de animais (porcos, vitelos, cabrestos) também se destinava, essencialmente, a consumo próprio. Quando por lá estava gostava de ajudar a espalhar o milho nas eiras, para secar. Sentia-me útil ajudar e participar nas tarefas artesanais dos habitantes da aldeia. Alguns deles eram ainda meus familiares, embora primos mais afastados. Nas aldeias somos todos, mais ou menos, primos, por razões óbvias e naturais.

Não me posso esquecer de referir a saga dos incêndios que todos os anos assolavam a aldeia. Lá um ou outro ano os incêndios florestais chegavam mais perto ou atingiam mesmo os pinhais que envolviam a aldeola. Sempre era uma preocupação, pela nossa segurança, como pela destruição de culturas e criação de animais. As folhagens, ainda em chama, que chegavam perto das casas, trazidas pelo vento, faziam espoletar focos de incêndios, que esforçávamos por prontamente apagar.

Na passagem de ano não havia fogo de artifício, como nos centros urbanos. Mas havia seguramente muitas tampas de tachos e panelas a bater umas nas outras. O som ecoava pela aldeia toda. Todos à uma faziam com que parecesse um grande fogo de artificio, bem sincronizado. Assim era recebido o ano novo na aldeia onde tantos fins de ano passei.

Hoje tudo mudou, já não há praia de seixos. As represas de contenção no rio, fizeram subir o nível das águas, o que lamentavelmente fez com que a beleza natural destas praias fluviais viesse a desaparecer. As águas são escuras (talvez mesmo sujas) pelo que já não é possível ver o leito do rio como antigamente. As gentes da aldeota são cada vez menos. Com o passar dos anos, e o inevitável envelhecimento dos habitantes, a população vai diminuindo. Os filhos e os netos têm-se deslocado para os centros urbanos, ou mesmo para o estrangeiro (procurando melhores condições de vida). A aldeia está a ficar deserta, as casas estão a deteriorar-se, se não mesmo a cair aos poucos. A modesta casa donde tantas memórias retenho, está à venda (sabe-se lá por quem!). Já faz alguns anos que o chafariz secou. Nem bica tem, mas está pintadinho de fresco!

Sem qualquer manutenção e intervenção humana, a aldeia vai sendo consumida pela própria natureza, sucumbe claramente aos pés da intempérie. 


Adeus Lugar Querido!

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